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Segmento da produção primária

 

 

 

 

Raimundo Reis
Sócio-diretor da Leite & Negócios Consultoria.
Nicédio Nogueira
Engenheiro Agrônomo e Presidente da OCB-SESCOOP/CE.

 

Apesar do estudo e a análise terem sido realizados em oito regiões do Ceará, neste artigo serão apresentados os dados gerais do Estado, representando a média de todas as regiões pesquisadas.

 

Os dados da pesquisa demonstram uma atividade com problemas nos aspectos tecnológicos, gerencias e organizacionais. Seja através da avaliação do perfil dos produtores, das características das propriedades ou dos modelos de produção adotados, a situação é preocupante, indicando um longo caminho a ser percorrido para que se possa realmente ter uma atividade dinâmica e sustentável.

 

Em relação a produção diária de leite, a pesquisa mostra que a grande maioria dos produtores, 57,7%, pertencem ao estrato 0-50 litros e produzem apenas 18,8% do total de leite produzido com média de 28 litros por produtor (tabela 1). Somando-se o número de produtores dos três primeiros estratos (0-50, 51-100 e 101-300 litros), obtém-se que 96,5% deles enquadram-se nestes estratos e respondem por 71,3 % da produção com média de 64 litros. Os três últimos estratos (301-500, 501-1.000 e > 1.000 litros) detêm 3,5% dos produtores que são responsáveis por 28,7% da produção com média de 706 litros.

 

Tabela1. Número de produtores em valores absolutos e relativos e produções total e média de leite no estado do Ceará, estratificado segundo produção diária de leite.

Fonte: Yamaguchi et al. Competitividade da cadeia produtiva do leite no Ceará: produção primária/2008

 

Estes números mostram que a atividade leiteira é explorada essencialmente por pequenos produtores. Apesar de não partilhar da opinião dos que acreditam veementemente na saída dos pequenos produtores da atividade, é evidente que a baixa escala de produção é um fator limitante ao sucesso do negócio, principalmente quando desenvolvido com baixo nível tecnológico e de eficiência, o que infelizmente é a realidade detectada pelo estudo.

 

É importante salientar que a baixa eficiência da exploração leiteira não se restringe aos pequenos produtores. Apesar de existir tendência de melhora no nível de adoção de tecnologia e de melhores resultados na medida em que se avança nos estratos de produção, de forma geral os dados evidenciam que os produtores de maior produção também apresentam ineficiência na atividade.

 

Um bom exemplo pode ser observado nos dados de estrutura do rebanho e a combinação da estrutura de rebanho e produção de leite (tabela 2). O baixo percentual de vacas lactação é uma realidade em todos os níveis de produção observados. Apesar do menor percentual de vacas em lactação em relação ao total de vacas no rebanho ter sido verificada no estrato 51-100 litros, apenas 57,1%, os índices observados nos estratos de maior produção, 501-1.000 e > 1.000 litros, também apresentaram valores abaixo do preconizado, 63% e 66%, respectivamente. Como o ideal é ter 83% das vacas do rebanho em lactação, isso significa que os produtores nesses estratos estão produzindo em torno de 20% a menos do que poderiam, ou seja, uma perda de receita considerável.

 

Tabela 02. Dados de produção e produtividade do rebanho leiteiro dos produtores de leite no estado do Ceará.

Fonte: Yamaguchi et al. Competitividade da cadeia produtiva do leite no Ceará: produção primária/2008
Elaboração: Reis Filho - Leite & Negócios Consutoria

 

Em termos de produtividade do rebanho os números também são preocupantes. É muito difícil, para não dizer impossível, viabilizar a atividade leiteira com produção por vaca em lactação de 3,5 litros de leite/dia. Essa é a realidade dos produtores cearenses que produzem até 50 litros por dia (tabela 2). A pesquisa mostrou que nos estratos subsequentes ocorre um aumento crescente neste índice, porém até o estrato 301-500 litros/dia, que apresenta produção de 6,5 litros/vaca lactação/dia, os resultados também não são animadores.

 

Avaliando a produção de leite por animal no rebanho, os números se agravam um pouco mais. Em um rebanho leiteiro onde para cada animal existente se produz apenas 0,8 litro/dia, é desafiador e intrigante acreditar que a receita advinda da venda do leite consiga custear as despesas desses animais, remunere a atividade e ainda garanta ganho ao produtor.

 

A baixa produção e produtividade dos rebanhos são reflexo do baixo nível tecnológico e gerencial das propriedades. Começando pela alimentação do rebanho, os números da pesquisa mostram a utilização em larga escala de manejos inadequados e a prevalência de sistemas tradicionais de produção de forragem, bem como a forma como o rebanho é alimentado.

 

Como exemplo a prática de adição de água ao volumoso fornecido nos cochos é bastante usual entre os produtores cearenses. Do total dos entrevistados, em valores relativos, a adição de água ao volumoso é adotada por 58,4% dos produtores. Até mesmo no estrato de maior produção, (> 1.000 litros) esta prática é verificada em 43,7% dos produtores pesquisados.

 

A capineira é a forma de suporte forrageiro mais utilizada nas propriedades, estando presente em 81,42% do total de fazendas pesquisadas. A silagem é uma prática pouco usual nos estratos de menor produção, porém bastante representativa no estrato >1000 litros, 82,35% (tabela 03). O feno ainda é muito pouco utilizado nas propriedades cearenses.

 

A pesquisa também revelou alguns pontos positivos em relação a alimentação do rebanho. A prática da mineralização é bastante presente entre os produtores do Estado, sendo utilizado por 75,9% das propriedades pesquisadas. Apesar de não possibilitar a avaliação qualitativa do produto, é evidente a preocupação dos produtores com este item na dieta dos animais.

 

Outro resultado importante foi a quantidade de produtores que utilizam o balanceamento de ração. Apesar de ser mais expressivo nos dois maiores estratos, o percentual encontrado nos estratos 0-50 e 50-100, respectivamente, 45,53 e 55,65%, são expressivos.

 

Tabela 03. Tabela 03. Sistema de alimentação do rebanho leiteiro adotado no estado do Ceará, estratificado segundo produção diária de leite, expressos em valores relativos.

Fonte: Yamaguchi et al. Competitividade da cadeia produtiva do leite no Ceará: produção primária/2008
Elaboração: Reis Filho - Leite & Negócios Consutoria

 

Dado o longo período sem chuva (denominado em boa parte do Nordeste de “verão”) e as altas temperaturas e forte intensidade luminosa nestes meses, a prática da irrigação é bastante difundida e utilizada pelos produtores. O percentual de produtores que adotam a tecnologia de irrigação de pastagens chega a 72,4% do universo pesquisado. Outro dado importante se refere a adoção em todos os estratos, da técnica de pastejo rotacionado, presentes em 22,3% das propriedades pesquisadas. Apesar de se utilizar métodos intensivos de produção de forragem, o fato da grande maioria dos produtores não realizar análise e correção do solo, respectivamente 7,75% e 4,75% do universo pesquisado, torna esta prática arriscada e o sistema vulnerável.

 

Apesar de acreditar que com a melhoria na alimentação dos rebanhos, em quantidade e em qualidade, a efetivação de controles sanitários básicos e um gerenciamento mais eficaz, já seja possível dobrar a produção de leite nas propriedades, a qualidade dos animais é, de forma geral, muito aquém do padrão mínimo exigido para obtenção de resultados econômicos satisfatórios.

 

Nas propriedades cearenses existe predominância de gado mestiço objetivando a produção de leite, representando 83,7% do universo pesquisado. A prevalência de animais não especializados e de baixa qualidade no rebanho é, sem dúvida alguma, um fator limitante para a produção de leite, porém o mais preocupante é a falta de perspectivas de mudança deste quadro. De acordo com a pesquisa, 53,16% dos reprodutores utilizados nas fazendas são mestiços, ou seja, sem raça definida e portanto de baixa qualidade genética. Quando perguntados, os produtores parecem ter ensaiado as respostas: “Escolhi o bezerro da minha melhor vaca no curral, a Mimosa, que produziu 10 kg de leite cuado”, ou: “Arrumei o bezerro no vizinho. É filho de vaca boa e de inseminação”. O resultado da união de uma base genética existente de baixa qualidade com um reprodutor ruim, o que se esperar das futuras matrizes?

 

Caso a melhoria da qualidade genética dos rebanhos for depender do uso da inseminação artificial, o processo deverá ser mais longo ainda, pois esta técnica é muito pouco difundida entre os produtores de leite do Ceará. Apenas 5,5% do universo pesquisado adotam a prática de inseminação artificial no rebanho leiteiro (tabela 04). Os números melhoram consideravelmente nos produtores inseridos nos estratos 501-1000 e >1000, apresentando 38,46% e 70,59% de propriedades que utilizam a técnica. Se por um lado os dados mostram certa preocupação no aspecto tecnológico, por outro sinaliza grande oportunidade de mercado para as centrais de inseminação, afinal existem 94,5% dos produtores cearenses como potenciais consumidores.

 

Tabela 04. Uso da inseminação artificial pelos produtores de leite no estado do Ceará, estratificado segundo a produção diária de leite, expressos em valores relativos.

Fonte: Yamaguchi et al. Competitividade da cadeia produtiva do leite no Ceará: produção primária/2008
Elaboração: Reis Filho - Leite & Negócios Consutoria

 

Completando a avaliação dos fatores mais importantes na condução da bovinocultura de leite, os cuidados sanitários com os rebanhos se restringem basicamente a vacinação contra febre aftosa, onde 98,13% dos produtores a fazem, e a vermifugação dos animais, onde é realizada por 81,91% do universo pesquisado. Os outros controles, como vacinações contra Clostridiose, Brucelose, Pneumoenterite, leptospirose e IBR-IBV, são realizados em menor escala. A realização de exames de brucelose e tuberculose é uma prática pouco adotada pelos produtores, respectivamente apenas 5,07 e 2,28% do total pesquisado, o que demonstra que o controle dessas doenças está longe de ser alcançada.

 

O sistema de ordenha utilizado pelos produtores indica a predominância do tradicionalismo na atividade. A pesquisa avaliou o tipo, a forma e o número de ordenhas diárias nas propriedades. O tipo de ordenha mais adotada é a manual, onde 98,11% das propriedades à adotam, decrescendo à medida que se passa do menor para o maior estrato de produção (tabela 5). No estrato de maior produção a utilização de ordenha mecânica chega a 56,2% das propriedades pesquisadas. Também se verifica que é bastante usual o sistema de ordenha com bezerro ao pé da vaca na exploração da atividade leiteira no Estado do Ceará. Cerca de 97,1% do total de entrevistados, adotam este sistema na rotina diária da ordenha. Quanto ao número de ordenhas, observa-se que prevalece o sistema de uma ordenha diária, 66,88% do total, cuja participação relativa decresce à medida que se passa do menor para o maior estrato. Cabe registrar que o sistema de três ordenhas diárias é insignificante no contexto da pecuária leiteira cearense.

 

Tabela 05. Sistema de osrdenha adotada pelos produtores de leite no estado do Ceará, estratificado segundo produção diária de leite, expressos em valores relativos.

Fonte: Yamaguchi et al. Competitividade da cadeia produtiva do leite no Ceará: produção primária/2008
Elaboração: Reis Filho - Leite & Negócios Consutoria

 

A qualidade do leite, tema muito discutido nos últimos anos é uma realidade longínqua nas propriedades pesquisadas, pelo menos era até a data do levantamento de dados, onde a maioria dos produtores de leite do Estado não adota nenhum sistema de resfriamento do leite, mesmo nos estratos de maior produção. Do total dos produtores pesquisados, apenas 5,78% fazem o resfriamento do leite na propriedade, enquanto 94,22% não fazem nenhum tipo de resfriamento do leite. Dos produtores adotantes, o sistema mais utilizado é o tanque de resfriamento, cuja utilização cresce do menor para o maior estrato de produção, chegando a 64,7% dos produtores do maior estrato > 1000 litros.

 

Em função dos investimentos realizados nos últimos dois anos pelas indústrias de laticínios do Estado, através da compra e colocação de tanques de resfriamento nas propriedades, as compras governamentais de tanques comunitários e um maior volume de aquisições diretas desses equipamentos pelos produtores, esses números podem ter melhorado, porém é importante salientar que o resfriamento do leite não é sinônimo de garantia da qualidade da matéria-prima, necessitando de cuidados em todo o processo de produção e manipulação do leite.

 

No que se refere ao gerenciamento da propriedade, os dois sistemas de administração mais empregados nas propriedades são aqueles realizados pelo proprietário (17,6%) e pela combinação proprietário/família (44,7%). Isso evidencia o perfil de agricultor familiar dos produtores envolvidos na atividade leiteira no Estado. Essa percepção é reforçada quando se analisa o local de residência dos produtores e tipo de mão-de-obra empregada. Mais da metade dos entrevistados dos três primeiros estratos de produção residem na fazenda (77,36%). Já nos três últimos estratos, mais da metade residem na cidade (54,7%). Da mão-de-obra empregada, 38,5% dos produtores inseridos em todos os estratos, é classificada como familiar, número que são mais expressivos nos estratos de menor produção. Apenas 16,1% dos trabalhadores envolvidos na atividade são assalariados, enquanto 45,4% são temporários.

 

A presença dos produtores na propriedade não garante a boa gestão da atividade leiteira. Apenas 11,9% do total de produtores entrevistados adotam o controle leiteiro como rotina e 16,1% acompanham o custo de produção de leite. Observa-se também que, ao se passar do estrato de menor para o de maior produção, é crescente o uso de sistemas para controlar a atividade leiteira entre os produtores cearenses.

 

A utilização de ferramentas gerenciais na atividade parece estar relacionada com o nível de escolaridade dos produtores. O grau de analfabetismo nos quatro primeiros estratos de produção, em números relativos, representam 8,0% do total pesquisado. Nos três estratos de menor produção, 64,1% dos entrevistados se enquadram na formação de ensino fundamental incompleto. Sem dúvida que a falta de uma base mínima de conhecimento implica numa baixa capacidade de aprendizagem ou até mesmo a resistência na utilização dessas ferramentas. Essa dificuldade porém, não é um fator impeditivo para uma gestão mais profissional, pois quando há decisão por parte do produtor em empregá-la, a força de vontade prevalece perante ao baixo nível de escolaridade.

 

De forma geral o segmento primário no estado do Ceará apresenta um baixo nível tecnológico e gerencial, porém algumas melhorias e evoluções são perceptíveis e começam a mudar a realidade nas fazendas cearenses. Um bom exemplo está na utilização do pastejo rotacionado irrigado, tecnologia difundida ao longo dos últimos 8 anos e que começa a mudar o perfil tecnológico da produção de leite no Ceará.

 

O Portal Leite & Negócios disponibiliza aos interessados em obter as publicações, o download dos arquivos em formato PDF. Você também pode entrar em contato com a Organização das Cooperativas Brasileiras no Ceará –OCB/CE, através do fone: (85) 3531.3669 e falar com Sandra Andréa.

 

* Livro volume 1: "Produção Primária"